LEIA A SINOPSE DA SÃO CLEMENTE PARA O CARNAVAL 2027

SINOPSE

Bem-Te-Vi!!!

Meu chamamento ecoa no tempo em espiral. O que foi, o que é, e o que será se encontram nas encruzilhadas continuamente. Quem precisa de solução tem pressa, e eu sou a força motriz que impulsiona o movimento e abre os caminhos para a realização. É no meu ninho que a conexão invisível entre o Ayê e o Orum faz morada. Trago o dinamismo para onde há vida, fazendo o fluxo de energia circular e se transformar em algo novo, único, original. O pássaro mensageiro anuncia: Crialogia – Gambiarra à Brasileira, é um convite para apreciar uma degustação de brasilidade.

A boca que tudo come tem fome: mastiga as informações, saboreia o conhecimento, e expele um invento. Fome daquilo que nutre, fome de saber, fome de superar, resolver; apetite voraz, capaz de devorar o prato para saciar a fome do Brasil.

No caldeirão histórico-cultural, a mistura de raízes dá um caldo étnico que exala herança e ancestralidade, oriundas da miscigenação de povos indígenas originários, brancos europeus colonizadores, e negros africanos escravizados e seus descendentes, endossando o nosso sincretismo religioso, para deleite antropológico de riqueza imensurável.

O som dos atabaques determina o ritmo desse encontro entre tambores e tribos, embebido de Fé, tradições, conceitos, fundamentos, preceitos e Axé. Mas com o decorrer dos fatos, aprendemos que “nem tudo o que reluz é ouro”, há mazelas na formação do arquétipo do povo brasileiro, e o precário não pode ser romantizado, nem inventivamente transformado em solução. O processo de aculturação que nos foi imposto literalmente usurpou o nosso ouro, e assim, passamos a usar a inventividade para resistir, existir. Aprendemos que criar a própria realidade é uma forma de salvação, porque ser criativo na escassez é uma necessidade. 

Há quem diga que ter uma nova ideia é como observar uma galáxia particular recém-descoberta, mas o tempo para desfrute e apreciação é relativo… Enquanto uns, amadores inspirados, usam a lógica do “preciso resolver isso agora” para fazer gambiarras domésticas restritas, sem ferramentas adequadas ou técnicas específicas, outros, inventivos inspiradores, se revelam inventores de feitos coletivos transformadores, porque ousaram lapidar seus inventos até atingir excelência.

Assim, surgiu a máquina de escrever, oriunda do desejo de otimizar e padronizar o registro da palavra; o rádio, viabilizando comunicação instantânea acessível em massa, propagando em ondas, notícias e canções; o avião, que deu asas à imaginação, e realizou o sonho do Homem de voar, livre, lá nas alturas; a radiografia, máquina desenvolvida para ver os ossos, que ao fotografar a sombra do esqueleto, foi chamada de bruxaria, como se captasse a alma do corpo, mas na verdade, é instrumento fundamental para diagnóstico, um grande feito para a medicina.

Quem não tem cão, caça com gato”, diz o ditado popular. Se faltar o faro do conhecimento prévio necessário, a gente ativa o instinto da intuição. Porque no jogo da vida real, é fundamental encontrar luz na escuridão e saber jogar com as cartas que se tem na mão. Criatividade é chama que ilumina o impulso para a ação. Foi assim, que desenvolvemos a arte de fazer do limão não só uma limonada, mais caipirinha, docinho, mousse, bolinho, temperar a carne de porco e colocar por cima do salaminho.

A gente se vira – às vezes, revirando as pálpebras, mas se vira – se revira, dá um jeito, pulando de galho em galho, quebrando galho, serrando tronco, fazendo malabarismo, correndo a gira, equilibrando os pratinhos, mas resolve.  Ufa!!!

As mães, chefes de família, muitas vezes solo, mas não sozinhas, parecem ter se tornado especialistas nessa coisa de apesar das adversidades, encontrar uma saída quando tudo parece perdido. Talvez isso seja mesmo um superpoder, desenvolvido no ventre de quem tem a capacidade de se transformar em abrigo, morada e alimento, para gerar um novo ser.  

Gente, que pra ser gente, precisa da gente… Desde o berço, na solidariedade comunitária, para olhos atentos, é possível enxergar poesia e um estranho deslumbramento na dificuldade travestida de memória afetiva: o varal de bambu com pregadores quebradiços na lage, titubeando com o soprar dos ventos; a TV apresentando a transmissão, reparada por um embolado de palha de aço na ponta da antena; o chinelo de dedo com a tira remendada por um prego atravessado; as brincadeiras de criança que driblam o sufoco com futebol de chapinha e bola de meia, cenário que remete a uma trama de laços emocionais.  A criatividade brasileira começa no território. Se não tem as manhas, não entra não!  

Nas ruas, becos e vielas da favela, o retrato realista das gambiarras que nascem do improviso criativo, quando a vida apresenta senso de urgência em busca de opção e solução; em meio às pipas que cortam o céu e desenham manobras no ar, rabiolas enroscadas no emaranhado de fios e cabos que conduzem luz e internet, onde repousa um par de tênis arremessado, que por vezes remete a um pedido socorro e sorte, por parte de quem já perdeu o chão e o norte. 

Calce os meus sapatos e trilhe o meu caminho”…  Falar de meritocracia sem falar de privilégios, é ignorar a insana realidade da desigualdade social exacerbada, onde o lobo se alimenta da ambição atroz. No caos de quem vive na corda bamba entre o descaso e o improviso, meninos fiéis, moleques crias geniais, criam oportunidades mandando o passinho, armados de livros e instrumentos musicais.  Na comunidade e na periferia, a gambiarra da vida cotidiana revela os sintomas de resistência diante da precariedade, é a vida pulsando marginal à discrepância, representada pela flor que brota ao romper a aridez do asfalto, pra lembrar que é sobre viver, e não só sobreviver.

A criatividade também existe para criar alegria. Nos dias em que a rotina flerta com o abatimento, o desânimo e a tristeza, possivelmente como mecanismo de sobrevivência ou defesa, aprendemos a inventar uma espécie de felicidade provisória para nos alegrar e combater o apoquento; pequenas doses de prazer, ainda que temporariamente, mesmo que tenha prazo de vencimento iminente. Segundo o brilhante escritor Luiz Antônio Simas, “a gente se reinventa para viver a festa através de frestas de encantamento”.

No Brasil, a nossa alegria é estratégica. Temos o privilégio de vivenciar uma cultura que o mundo inteiro fica fascinado, tenta decifrar os nossos hábitos e costumes, mas só quem nasceu e vive aqui consegue sentir na pele: que é a nossa capacidade de atingir o estado de congraçamento enquanto contragolpe do infortúnio, do revés e da miséria.

Se gambiarra é essa combinação de um monte de coisas reunidas, coladas, aglomeradas, costuradas, sobrepostas, ajuntadas, que viram uma espécie de “troço ou treco resolutivo”, a gambiarra das fanfarras reúne um conjunto de folguedos populares nacionais capazes de proporcionar catarse coletiva e redenção da população, produzindo beleza e êxtase com aquilo que o sistema descarta.

São manifestações artísticas diversas e multifacetadas, que reúnem música, dança, fantasias, adereços, maquiagem… Uma autêntica “bagunça organizada”, artifício para combater toda a forma de falta, fome e vazio, onde impera um clima festivo de avesso da ordem, que agrega pessoas para momentos destinados a curar as agruras a baixo custo e simplesmente desfrutar o existir. Saber ser fortaleza, e escancarar o riso apesar das dores, é genialidade atrevida, e uma das mais belas formas de traduzir o que significa ser.

Porque as festas populares são brechas que possibilitam a reconstrução do sentido coletivo de vida onde esses sentidos foram historicamente dilacerados. Os blocos de rua e suas invencionices, com uma multidão de foliões fervendo na pistatodo mundo junto e misturadomiscelânea de suor, glitter, brindes e beijos; a sátira inteligente e caricata dos bonecos gigantes de Olinda, engenhosidade que ganhou as ladeiras da cidade, coloridas pelo girar das sombrinhas ao som do frevo; o batuque do Maracatu, que carrega a coroa na cabeça e o tambor no peito, cortejando a negritude; o Afoxé, Axé benzedeiro difundido a partir do terreiro; a galera atrás do trio elétrico, literalmente pulando que nem pipoca, dentro e fora das cordas; o espetáculo criado pelos artífices das Escolas de Samba, que insistem em colorir o mundo com uma aquarela especial, porque enxergam o tanto que há de Sagrado nessa festa dita profana. ‘

O Carnaval é a maior crialogia já inventada pelo Brasil!!! É uma virada de chave que abre portas e propicia a reconstrução de sociabilidade e coletividade, outrora inviabilizada; se apropria da sabedoria da escassez, e nos coloca diante da necessidade de nos (re)inventar. Na Avenida onde os sonhos ganham vida, evidencia-se a capacidade de transformação e adaptação, tal qual camaleão. Em meio a um mar de rosas, gente simples ganha status de personalidade, e corpos encantam ao som do Samba, onde a malandragem reina, de braços abertos, a olhar por nós.

Bem-Te-Vi!!!

A São Clemente vem aí!!!

Carnavalesca: Annik Salmon

Enredista: Bianca Behrends

Enviado pela assessoria de imprensa da São Clemente

Postado por Adiel Carteiro Poeta

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Adiel Silva Santos

O Carteiro Poeta Sambista já escreveu e publicou cinco livros com recursos próprios e um com apoio de uma lei de incentivo à cultura; e trabalhou na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos como carteiro durante 34 anos, onde exerceu por um período a função de Coordenador de Relações Sindicais. Encontra-se atualmente aposentado, morando no bairro Morada de Laranjeiras, no município da Serra – ES.

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